5ª SERIE: RELAÇÃO PAIS X FILHOS UMA QUESTÃO DE VERTICALIDADE

Aqui no Cresça todos os pais, mesmo que tenham “ouvido falar” da escola, antes de efetivarem a matrícula de seus filhos, precisam passar por uma conversa com a direção ou com uma das coordenadoras. Para nós é muito importante a escolha da escola. Os pais precisam conhecer a metodologia, os pressupostos filosóficos que a norteiam, o grau de acolhimento dos profissionais, a sua formação e etc, etc...
Desde o primeiro encontro, o diálogo deve transcorrer num clima de cordialidade e da mais pura sinceridade. É aí que se inicia uma relação de confiança mútua. Por que estou falando disso?!! Em primeiro lugar porque devemos respeito a todos os que nos procuram mas, preocupa-nos a atitude de muitas mães e pais que, após uma longa conversa e muitas perguntas, encerram o bate-papo com a seguinte afirmativa: “Bem, gostei muito da escola, agora vou conversar com meu filho(a). Afinal ele(a) é quem vai estudar, portanto ele(a) é quem decide. Posso trazê-lo(a) aqui, para que conheça a escola? Não gosto de impor-lhe nada, prefiro cultivar a amizade...” Ah! lembro que os filhos que irão tomar esta decisão, têm entre 5 e 13 anos!
Vamos refletir sobre a questão e sobre a amizade entre pais e filhos. Uma relação de amizade abrange bem-querer, companheirismo e cumplicidade. Estas qualidades podem fazer parte da relação pais e filhos mas, não são a base. Numa relação de amizade deve existir reciprocidade que supõe horizontalidade nas relações estabelecidas, isto é, igualdade, simetria entre as partes. No entanto, não existe educação sem hierarquia, por isso a relação entre pais e filhos é assimétrica. Os pais se dedicam (a vida toda) a seus filhos e o que devem esperar é respeito e não reciprocidade. Pais devem ficar num “patamar” superior aos filhos. E é claro, muitas vezes, saírem desse “patamar” e chegarem ao nível dos filhos: brincar, soltar pipas, jogar futebol, tênis, contar piadas, passear etc... mas, logo depois devem voltar para os seu lugar. Pais e mães são referenciais para seus filhos. São “porto seguro”, exemplo, modelo... Decisões devem ser tomadas pelos pais, como por exemplo, a decisão de matricular o filho numa escola. Uma criança não pode arcar com tamanha responsabilidade e, principalmente em nome da amizade. Alguns pais dizem que “não há problema, meu filho pode tomar esta decisão, porque nós falamos tudo um ao outro”. Ao se propor aos filhos essa relação horizontal, na qual se fala tudo e se espera ouvir tudo deles, não se preserva o distanciamento necessário para que cada um se constitua como sujeito. Os filhos têm segredos que não compartilham com os pais (e nem devem!!). O que estes pais não percebem é que agindo dessa forma, não estão instrumentalizando a criança para a vida, não estão favorecendo a construção da ética, pois assumir a responsabilidade de escolher a escola para seus filhos é tão importante quanto interditar tudo aquilo que represente perigo físico ou psíquico aos filhos. Dizer NÃO e estabelecer limites é muito mais trabalhoso do que dizer sim e deixar acontecer. Em alguns casos, dizer sim aos filhos é mais que danoso: é perverso! Pais precisam de paciência, que exige TEMPO, (não só a qualidade de tempo, a quantidade de tempo é igualmente importante!) e disposição para argumentar. Não podemos nos esquecer de que é de suma importância a segurança e coerência dos pais na transmissão de valores familiares, das regras e leis. É comum observarmos que determinadas crises na adolescência são provenientes da falta de investimentos na infância, que não podem ser delegados a outros ou às escolas. Sem a preservação da sua autoridade, não é possível a nenhum pai ou mãe educar.
 
Consuelo Carvalho de Araújo - Pedagoga especialista em educação
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