A DITADURA DA LIBERDADE TOTAL

Muitos pais, por serem filhos da ditadura militar (1964-1984) e de um modelo de família patriarcal/autoritário, tentam opor-se ao modelo por eles vivido, instalando em seus lares um outro tipo de ditadura: “o da liberdade total”.
Ao promoverem para seus filhos, o que eles próprios não viveram, acabam oferecendo coisas e um espaço decisório que é incompatível com a faixa etária das crianças. Estes pais oferecem o que gostariam de ter tido e não tiveram.
A criança, ao perceber este espaço de liberdade, de poder de decisão e de adquirir todos os objetos que deseja, acaba não compreendendo bem o funcionamento do mundo e tem dificuldade para valorizar determinadas “conquistas”, que, em verdade, são de seus pais. As crianças acabam perdendo alguns referenciais de limites importantes para o bom equilíbrio familiar e social. Os filhos não compreendem, por exemplo, por que devem cuidar de seus pertences: “se perder compro outro”.
É fundamental para o bom desenvolvimento da criança, ter conhecimento de que seus pais se importam com ela; do que é dela; de que ela é amada por eles; de que a casa é habitada por outras pessoas que têm vontades, temperamentos específicos e gostos diferenciados e, fundamentalmente, de que os pais se cansam, ficam tristes e às vezes choram. Ao reconhecerem seus pais como individualizados e que, no contexto social, não são apenas pais, vão aprendendo a identificá-los, a diferenciá-los, a respeitá-los e (quem sabe?) a admirá-los.
A educação que não impõe limites e não descortina diferentes papéis na sua pauta de direitos e deveres, traz, por conseqüência, crianças inconsequentes e que não percebem a si mesmas ou nem “a que vieram”. Com a criança invasiva é difícil lidar, e ela tende a torna-se um adolescente difícil para consigo mesmo e para com os outros.
A criança que reage à autoridade negativamente, na melhor das hipóteses, não compreendeu que os pais tem inúmeros direitos, sim, em nome da autoridade. Ambos devem entender a autoridade como uma hierarquia sábia que vem do bom senso, da experiência e do amor por aquela criança. A autoridade que objetiva educar, orientar, esclarecer, facilitar, redimensionar.
A natureza egocêntrica da criança deve ser educada para o mundo. A criança necessita ser educada, e educação dá trabalho e demanda tempo, paciência, responsabilidade, bom senso e amor.
Necessitamos aprender a conviver com os limites. Temos limites muito objetivos como o fôlego, a força, o tamanho, o muro, os sinais de trânsito, o horário e outros mais subjetivos como a inteligência, o talento, a disponibilidade, a memória, a tolerância, o contrato, os princípios, etc.
Limites, todos nós temos. No entanto, eles não são muito bem aceitos, apesar de o bom senso nos indicar que eles são fundamentais. Saber dos nossos limites é uma grande vantagem que pode nos impulsionar para continuar caminhando. Contar com pessoas que nos auxiliem nesta caminhada é um excelente ponto de partida que nos sugere longas e promissoras distâncias.
Não tenha medo de dar limite para o seu filho, esta tarefa faz parte do papel dos pais. Seu filho vai amá-lo, também por isto!
 
Isabel Parolin