APRENDENDO A SER PAI... PELO AVESSO!

Ouvi muitas vezes uma frase que a minha avó materna dizia, que me deixou em posição de defesa durante muitos anos. Ela repetia a frase, cada vez que um filho ou um neto precisava de atenção diferenciada, geralmente em momentos de crises existenciais, em que ela corria a socorrê-lo. Então, ela justificava o evento dizendo: “Mãe é mãe! Pai é palha!”.
Certa vez, desejei saber o significado da frase e ela me explicou que as mães amavam seus filhos, de verdade! Estavam sempre por perto e os pais eram ausentes e, por isso, não amavam os filhos com a mesma intensidade que as mães.
E hoje, tantos anos passados, fico a pensar porque em nossa cultura o pai desaparece do universo do filhote? Em resposta vejo que assim que o bebê nasce um batalhão de mulheres o cerca: mães, avós, tias, madrinhas, babás, enfermeiras...
Nossas crianças convivem com empregadas, vizinhas, professoras, diretora, orientadora, psicóloga, pediatra, a moça da portaria, a da cantina, a da “Kombi” escolar... Nessa corrida, com tantas figuras femininas, a menina aprende a ser mulher e mãe mas, e o menino? Coitado, pelo avesso tem que aprender a ser homem... pelo avesso também tem que aprender a ser pai!
Nossos “meninos” tornam-se pais e, em geral, são solicitados a aparecer no cenário do relacionamento paterno somente em momentos de crise e, com mais freqüência, na adolescência de seus filhos. As mães “encaminham” o filho ao pai para uma conversa “de homem para homem” e, tornam-se queixosas, revoltadas e estressadas, dizendo que “não agüentam mais”, que o marido é um pai ausente, que o filho se ressente, que o pobrezinho está com dificuldades para se relacionar com os amigos, com os professores e também com os vizinhos.
Falta-lhe a figura masculina, os maridos não dão atenção aos filhos. Entretanto, justiça seja feita: o ambiente familiar ainda está, em pleno século XXI sob o domínio e a participação quase que exclusiva da mulher. É necessário que os homens se aproximem do universo doméstico e que as mulheres, não só tolerem, nem só encorajem essas incursões, mas que vejam nelas o procedimento essencial para o desenvolvimento das habilidades paternas tão desejadas por elas e tão necessárias aos filhos. De uma vez por todas, é preciso que as mulheres parem de rotular seus companheiros de desajeitados, permitindo-lhes o espaço e as oportunidades para o desenvolvimento de suas competências paternas.
Há que permitir que o banho do bebê seja dado pelo pai bem como as trocas de fraldas, o fazer da mamadeira, da sopinha e do suco. Há que respeitar a maneira de o homem se zangar e de expressar emoções. Os filhos têm o direito de conhecer o seu pai e, por mais desajeitado que ainda esteja em seu papel, certamente aprenderão a reconhecê-lo como personagem importante na família... melhor ainda: descobrirão cedo em suas vidas, e com a ajuda dele, que é fazendo e errando que se aprende.
As mães precisam conter o medo e parar de filtrar a imagem do pai; os filhos devem conviver com experiências reais e não com fantasmas! Até onde se sabe, os fantasmas são o produto de nossos medos e a melhor maneira para eliminá-los (fantasmas e/ ou medos) é submetê-los a experiências reais e objetivas no convívio familiar.
Da mesma forma que a mulher aprende a ser mãe, primeiro tendo a própria mãe como modelo, e depois os filhos como oportunidade para o exercício de seu papel familiar, também o homem aprende a ser pai com o pai que ele teve, e com os filhos que tem. Nenhuma mulher pode ensinar-lhe esse papel, sobretudo porque ela pouco sabe dessa função. Para desenvolver seu estilo, é preciso que o homem possa errar e corrigir o erro à sua maneira. As mulheres precisam abrir mão da crença de que cabe a elas zelar pelo relacionamento entre pai e filho.
Quando as mulheres aprenderem a conter sua ansiedade e desviar o olhar, poderão ter boas surpresas e eu poderei harmonizar a frase da minha avó: “Mãe é mãe, Pai é pai!”
 
 
Consuelo Carvalho de Araújo - Pedagoga especialista em educação
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